segunda-feira, junho 23, 2014

a alma em largura
não margeia
minhas lonjuras

tudo que em mim
é tão vasto... 

saudade pasto pensamento

amor imenso
cavalo livre
em baias fechadas.

porque
em mim
a língua solta
é estrada molhada
palavra que mastigo
entre teus dentes.

DV.
castigo


não é o beijo que se acumula na boca. 

é a língua que se aquece na palavra que chama
e manda embora. 

de todas as dores

a que não senti
foi a palavra dita
verbo
em lua derretida nos olhos
dessa madrugada

há de se fazer
chuva
quando tua poesia
me lavar de ti. 


Dira Vieira
Algumas fomes não existem no dicionário dos afetos. Se muito der, traduzimos no braille das ausências. 

Tua falta 
é um alfabeto
de ausências que
ardem na pele.

segunda-feira, maio 05, 2014


recital em preto e branco

(Para a letra que antecede o ritual da fala)


minha
saudade é tanta
tanta
e do que eu seria
tem a alma nas mãos
como se meu coração
fosse dedos
a tocar em mim
uma música nova composta por teus dentes em minha pele.

eu esperei a tua voz
como uma promessa
e chuva
molhando os planos
descritos em cenas e vários atos
era azul o batom
que me desenhou
arco iris
no teu globo ocular
de todas as cores
eu desenhei
o teu cabelo em minhas mãos
e era fumaça o sentimento
líquido que sonhavas
porque todo amor
é fútil
quando se acovarda das horas
e da verdade
porque o que sobrou em mim
é roteiro de
um recital de dúvidas
me sacode entranhas
e segredos
do teu nome em alfabeto grego
intenso
a me produzir sangue novo
em epidemia.
(DV)

domingo, fevereiro 02, 2014


Hoje

[alguns gritos entalam no peito
é preciso um abridor 
de sorriso
para destravar o que tá preso]

alguns

silêncios
só se leem
em braille

então

toca aqui,

se solta
a palavra
grito.

Dira Vieira

sábado, julho 06, 2013

Choveu e não dancei na chuva



estou muito triste. e de pouco vão me adiantar as frases de efeito que geralmente se diz nessas horas para tentar levantar o outro. eu conheço todas. palavras, notas musicais, letras, poesia, músicas. não me cite nenhuma, também não me chame para sair que a própria rua me espreme contra o muro, contra o céu. estou farta de ausências e nem sei se há de se compreender isso. não se consegue entender a tristeza do outro. o homem é uma caixa de pandora.

eu bem queria escrever poesia. misturar as palavras e tecer paredes onde o vento passa direto e provoca frio. eu sofro de ausências quase incontroláveis que me seca em alguns dias. Como hoje. a poesia tranca os dedos, cruza as pernas e faz pouco da minha tristeza. mas na verdade, para que ordenar as palavras para dançar para a multidão? tudo passa tão rápido. o elogio é vazio quando não está junto ao coração. eu tenho espinhos. um monte deles cravados em mim. cada um com uma história para contar.

o mundo é mau. as pessoas superficializam tudo. o culto ao corpo conta. sabe aquele moço? sei que a palavra toca a língua dele e ele canta. sei que a alma dele é azul e ele chora quando ninguém, vê. mas ele precisa dela. a moça bonita que de tão bela, nem consegue dizer nada, o que ele precisava ouvir. mas ele está bem na fotografia na parede. e isso lhe basta.

o sábado é um dia de casa. e por isso ele dói como uma faca de ponta pra cima. a casa é grande e isso aumenta a falta.

em mim, as palavras estão desencontradas como se estivessem na rua, com cartazes em branco. elas não dizem nada. nem eu digo. mas queria. 

terça-feira, junho 18, 2013


ensaio insano da tarde que se dobra na tua fotografia


desatas de mim
a tua letra
amarrada ao calcanhar
como marca

apagas o passado

tatuado na minha alma
mas não apagas
de mim a tua boca


soletras o meu nome
em contrário
repetindo para esquecer 

o que ainda te marca a pele.

eu te deixo à míngua de fome.

nem todas as musas
te leem pelo averso

calma revirada, homem nu
coberto de ilhas. 

Dira Vieira

domingo, abril 07, 2013

Porque de mim, 100% é água



Para Sérgio, com  afeto e com ternura

não sei se  vida se restringe ao que se pode tocar. a palavra, a quem devoto louvor, sempre me toca quando o longe é o que temos de tátil para respirar. sua imagem na tela, tem um vocabulário tátil, a voz do silêncio que se acomoda no desejo que o outro chegue longe (vai, voa logo que os campos te esperam, úmidos). o olhar que inspira, a fé que empurra e o verbo, se derramando na pele, como ruído de uma mensagem que talvez não fira, mas alimenta, como pássaro sedento de fios para pousar, encontra o braço estendido, estação de descanso e alívios...

tenho os medos alados. as asas abertas e o desejo roçando a pele com profunda sede de viver... e o outro, estalado do lado de lá como papel de parede de uma imagem multifocal assume em mim o ímã de festa: os corpos são apenas detalhes quando tudo conspira para a linguagem da pele... falo do verbo e do sorriso farto. falo do toque e da sintonia, respiração ofegante quando qualquer palavra toca o dentro e conjuga o verbo em todas as terminações...

era azul a tua pele quando me tocou na comunhão dos corpos em comum. e nem era dia de festa mas de acaso simples onde as almas se marcam sem se sentirem já que nem é preciso trocas, nem pagamento antecipado de coisa alguma. só entregamos o que nos derrama... e isso, a minha pele molha ante o teu aceno...

a vida é simples assim.

uma troca de afetos e de cores que justificam as interações sociais...

prefiro dizer que a minha alma se acende à tua... e que isso tinha hora e tempo para acontecer...
há uma noite e um silêncio de frases, quando a palavra nos constrói e desconstrói e continuamos isentos de culpas. ou absolutos em saber que somos a bio, sem necessidade de tradução ou de categorias e famílias...

o que é da mata é ser livre...

e o que é livre se derrete na pele... assim como você...açúcar que se mistura aos líquidos da pele... simples, como correntes d'água e de pensamentos.

porque em mim, és 100%  água corrente e semitons de liberdade...


domingo, fevereiro 10, 2013

do lado de dentro...





...e se eu não fosse pássaro talvez não pousasse sobre a tristeza de não poder fazer nada do lado de dentro dessas grades. porque quando sou lágrimas, sou-me saudade, solidão e asas.


Dira Vieira