Algumas fomes não existem no dicionário dos afetos. Se muito der, traduzimos no braille das ausências. Tua falta é um alfabeto de ausências que ardem na pele.
segunda-feira, maio 05, 2014
recital em preto e branco
(Para a letra que antecede o ritual da fala)
minha saudade é tanta tanta e do que eu seria tem a alma nas mãos como se meu coração fosse dedos a tocar em mim uma música nova composta por teus dentes em minha pele.
eu esperei a tua voz como uma promessa e chuva molhando os planos descritos em cenas e vários atos
era azul o batom que me desenhou arco iris no teu globo ocular de todas as cores
eu desenhei o teu cabelo em minhas mãos e era fumaça o sentimento líquido que sonhavas
porque todo amor é fútil quando se acovarda das horas e da verdade
porque o que sobrou em mim é roteiro de um recital de dúvidas me sacode entranhas e segredos do teu nome em alfabeto grego intenso a me produzir sangue novo em epidemia.
(DV)
domingo, fevereiro 02, 2014
Hoje [alguns gritos entalam no peito é preciso um abridor de sorriso para destravar o que tá preso] alguns silêncios só se leem em braille então
estou muito triste. e de pouco vão me adiantar as frases de efeito que geralmente se diz nessas horas para tentar levantar o outro. eu conheço todas. palavras, notas musicais, letras, poesia, músicas. não me cite nenhuma, também não me chame para sair que a própria rua me espreme contra o muro, contra o céu. estou farta de ausências e nem sei se há de se compreender isso. não se consegue entender a tristeza do outro. o homem é uma caixa de pandora.
eu bem queria escrever poesia. misturar as palavras e tecer paredes onde o vento passa direto e provoca frio. eu sofro de ausências quase incontroláveis que me seca em alguns dias. Como hoje. a poesia tranca os dedos, cruza as pernas e faz pouco da minha tristeza. mas na verdade, para que ordenar as palavras para dançar para a multidão? tudo passa tão rápido. o elogio é vazio quando não está junto ao coração. eu tenho espinhos. um monte deles cravados em mim. cada um com uma história para contar.
o mundo é mau. as pessoas superficializam tudo. o culto ao corpo conta. sabe aquele moço? sei que a palavra toca a língua dele e ele canta. sei que a alma dele é azul e ele chora quando ninguém, vê. mas ele precisa dela. a moça bonita que de tão bela, nem consegue dizer nada, o que ele precisava ouvir. mas ele está bem na fotografia na parede. e isso lhe basta.
o sábado é um dia de casa. e por isso ele dói como uma faca de ponta pra cima. a casa é grande e isso aumenta a falta.
em mim, as palavras estão desencontradas como se estivessem na rua, com cartazes em branco. elas não dizem nada. nem eu digo. mas queria.
terça-feira, junho 18, 2013
ensaio insano da tarde que se dobra na tua fotografia
desatas de mim a tua letra amarrada ao calcanhar como marca
apagas o passado tatuado na minha alma mas não apagas de mim a tua boca soletras o meu nome em contrário repetindo para esquecer o que ainda te marca a pele.
eu te deixo à míngua de fome.
nem todas as musas te leem pelo averso calma revirada, homem nu coberto de ilhas. Dira Vieira
não sei se vida se
restringe ao que se pode tocar. a palavra, a quem devoto louvor, sempre me toca
quando o longe é o que temos de tátil para respirar. sua imagem na tela, tem um
vocabulário tátil, a voz do silêncio que se acomoda no desejo que o outro chegue
longe (vai, voa logo que os campos te esperam, úmidos). o olhar que inspira, a fé que empurra e o verbo, se derramando na pele,
como ruído de uma mensagem que talvez não fira, mas alimenta, como pássaro sedento de fios para pousar, encontra o braço estendido, estação de descanso e alívios...
tenho os medos alados. as asas abertas e o desejo roçando a
pele com profunda sede de viver... e o outro, estalado do lado de lá como papel
de parede de uma imagem multifocal assume em mim o ímã de festa: os corpos são
apenas detalhes quando tudo conspira para a linguagem da pele... falo do verbo
e do sorriso farto. falo do toque e da sintonia, respiração ofegante quando
qualquer palavra toca o dentro e conjuga o verbo em todas as terminações...
era azul a tua pele quando me tocou na comunhão dos corpos
em comum. e nem era dia de festa mas de acaso simples onde as almas se marcam
sem se sentirem já que nem é preciso trocas, nem pagamento antecipado de coisa
alguma. só entregamos o que nos derrama... e isso, a minha pele molha ante o teu aceno...
a vida é simples assim.
uma troca de afetos e de cores que justificam as interações
sociais...
prefiro dizer que a minha alma se acende à tua... e que isso
tinha hora e tempo para acontecer...
há uma noite e um silêncio de frases, quando a palavra nos
constrói e desconstrói e continuamos isentos de culpas. ou absolutos em saber
que somos a bio, sem necessidade de tradução ou de categorias e famílias...
o que é da mata é ser livre...
e o que é livre se derrete na pele... assim como
você...açúcar que se mistura aos líquidos da pele... simples, como correntes d'água
e de pensamentos.
porque em mim, és 100% água corrente e semitons de liberdade...
...e se eu não fosse pássaro talvez não pousasse sobre a tristeza de não poder fazer nada do lado de dentro dessas grades. porque quando sou lágrimas, sou-me saudade, solidão e asas.
a pele solta lambe a palavra e derrama o mel de sua língua em um clichê de poesia letra a letra que se contorce em falta em um inglês sem tradução de um corpo que se toca sozinho enquanto se copia o olhar dele menino solto pássaro na gaiola de um céu e estrelas artificiais o anjo que cansou de asas abertas e saltou na vida real sem o sangue que arde no braille de bocas que se entendem por sí-la-bas e líquidos. Dira
Inquietações, desabafos, gritos, coisa alguma. A pele é a inscrição rupestre e a letra o meu testamento de vida. Sou aqui, uma carta em andamento, um dicionário de pequenos detalhes a cerca de mim mesma.
Email: dira.vieira@gmail.com