ensaio insano da tarde que se dobra na tua fotografia
desatas de mim a tua letra amarrada ao calcanhar como marca
apagas o passado tatuado na minha alma mas não apagas de mim a tua boca soletras o meu nome em contrário repetindo para esquecer o que ainda te marca a pele.
eu te deixo à míngua de fome.
nem todas as musas te leem pelo averso calma revirada, homem nu coberto de ilhas. Dira Vieira
não sei se vida se
restringe ao que se pode tocar. a palavra, a quem devoto louvor, sempre me toca
quando o longe é o que temos de tátil para respirar. sua imagem na tela, tem um
vocabulário tátil, a voz do silêncio que se acomoda no desejo que o outro chegue
longe (vai, voa logo que os campos te esperam, úmidos). o olhar que inspira, a fé que empurra e o verbo, se derramando na pele,
como ruído de uma mensagem que talvez não fira, mas alimenta, como pássaro sedento de fios para pousar, encontra o braço estendido, estação de descanso e alívios...
tenho os medos alados. as asas abertas e o desejo roçando a
pele com profunda sede de viver... e o outro, estalado do lado de lá como papel
de parede de uma imagem multifocal assume em mim o ímã de festa: os corpos são
apenas detalhes quando tudo conspira para a linguagem da pele... falo do verbo
e do sorriso farto. falo do toque e da sintonia, respiração ofegante quando
qualquer palavra toca o dentro e conjuga o verbo em todas as terminações...
era azul a tua pele quando me tocou na comunhão dos corpos
em comum. e nem era dia de festa mas de acaso simples onde as almas se marcam
sem se sentirem já que nem é preciso trocas, nem pagamento antecipado de coisa
alguma. só entregamos o que nos derrama... e isso, a minha pele molha ante o teu aceno...
a vida é simples assim.
uma troca de afetos e de cores que justificam as interações
sociais...
prefiro dizer que a minha alma se acende à tua... e que isso
tinha hora e tempo para acontecer...
há uma noite e um silêncio de frases, quando a palavra nos
constrói e desconstrói e continuamos isentos de culpas. ou absolutos em saber
que somos a bio, sem necessidade de tradução ou de categorias e famílias...
o que é da mata é ser livre...
e o que é livre se derrete na pele... assim como
você...açúcar que se mistura aos líquidos da pele... simples, como correntes d'água
e de pensamentos.
porque em mim, és 100% água corrente e semitons de liberdade...
...e se eu não fosse pássaro talvez não pousasse sobre a tristeza de não poder fazer nada do lado de dentro dessas grades. porque quando sou lágrimas, sou-me saudade, solidão e asas.
a pele solta lambe a palavra e derrama o mel de sua língua em um clichê de poesia letra a letra que se contorce em falta em um inglês sem tradução de um corpo que se toca sozinho enquanto se copia o olhar dele menino solto pássaro na gaiola de um céu e estrelas artificiais o anjo que cansou de asas abertas e saltou na vida real sem o sangue que arde no braille de bocas que se entendem por sí-la-bas e líquidos. Dira
porque o abraço tem a dimensão da distância e a minha boca a tua ausência porque a palavra desenha palco quando o teu nome engasga no peito. Dira Vieira
domingo, novembro 11, 2012
Sussurro troco as minhas pernas pelas tuas carícias de almodóvar por baixo da mesa e a língua (incansável discurso no ouvido) é a palavra que veste a minha pele de Braille. Dira Vieira
quinta-feira, novembro 08, 2012
Paisagem
O pulso ainda toca e o peito se enche da última hora o que é eternidade se espalha e se mistura no ar o que tem de mim marca o narciso na alma
(e uma dor se mistura com o que sou) o que sobra desenha na aurora uma boca ávida de lágrimas (o que sou tem em tua boca a tradução dos abismos) tenho de mim todas as sedes de ti e um dia nublado pra mastigar silenciosamente como quem toca o outro lado de todos os contrários.
não compro os abismos, eles estão em tua fala doce que se
esconde entre os acordes desse desejo noturno. não compro os riscos, eles vem
na moldura que a tua língua traça toda vez que ensaia o meu nome. tenho todas
as letras e o teu nome talhado em mim em esfinge em um domingo à noite, duro de
engolir. o teu amor tomou a minha corrente sanguínea e me entornou em contrastes.
Inquietações, desabafos, gritos, coisa alguma. A pele é a inscrição rupestre e a letra o meu testamento de vida. Sou aqui, uma carta em andamento, um dicionário de pequenos detalhes a cerca de mim mesma.
Email: dira.vieira@gmail.com