Tinha a impressão de ter visto o anjo ali, quando fechei os olhos para chorar. Sim, podia ser ele. Senti quando um vento tomou-me por surpresa e me tocou as costas. Ele. E a minha dor fez a canção que eu tinha de melhor, verbo entalando na garganta como um grito de socorro.
Não poderia dizer para mais ninguém o que só ele poderia entender. Como essa música... um aboio que se canta sozinho, na varanda de casa, de frente ao portão quando todas as pessoas já foram embora.
E nada que me acene capta em mim essa ausência. E nada que eu tome pode medicar a saudade. Essa coisa estranha que é se sentir pela metade quando nunca se foi um inteiro.
Só sei que a tua boca tem a exata dimensão da volta e da minha. O peito se aperta enquanto os olhos desenham uma estrada de silêncio até o teu coração. Estrada sem volta...
Eis-me domando os ventos e orquestrando o silêncio dos dias em que passo sem ouvir, ver, tocar, falar , sonhar contigo.
E qualquer conselho, e qualquer ordem e qualquer fala estranha pode sim não entende que as dores permanentes, as dores agudas misturadas não pintam quadros, nem desenham paisagens mas nos afogam em imensas ordens de sossega, sossega, coração. Eu sou a luta de levantar e seguir e outra luta de esperar e esperar...
Sim. Era ele, quando fechei os olhos para chorar, porque todos os dias derramo as tempestades sobre o caminho que ele fez enquanto voou para que os meus rios o tragam, mesmo que nem seja uma volta, mas outro encontro que me deixe navegar por ele... por seu corpo, por sua pele, por suas mãos e sua voz firme que me grita: levante, levante daí, porque é a sua boca em que eu vim mergulhar, como quem toca a fonte de sua emoção.
Eu gritei. E ele ouviu. Mas cansou de ser anjo, pois queria ser pássaro gente também.
Dira Vieira