As vezes não tem jeito. O tempo fecha. O dia finda. E você percebe que por mais que tenha preenchido as suas fugas, o espaço dele ainda está ali, em vácuos de permanência latente.
Em mim, as esperas cansam e os lábios secam de tanto lamber a palavra cria.
Essa falta que me arde, tem a estatura e a dimensão da
sensibilidade do homem que veste asas e desfila amor em minha companhia.
E toda vez que sofro, sou você. E toda vez que me reviro no viver, sou eu. Mas todas as vezes que pensar cheiros, seu nome é o que pinto em lilás na minha saudade sobre todas as coisas que recrio.
(quando te vejo o meu azul veste a tua pele e sai nu por ai)
Ali, naquele lugar onde o abismo era a tua palavra, deixei para sempre os meus pés na calçada, porque o que é de mim, vem atrás, e o que não me pertence desce a rua e dobra a esquina para nunca mais.
O que conto de nós é essa saudade e cartas escritas no imaginário profanando sonhos, promessas de luas cheias e verbos conjugados.
Chegamos tarde em todas as vidas e ali, o retrato da família se expande em um letreiro em neon. Lar, doce lar é o aviso de cão feroz no quintal. E o meu olhar se despede e volta, com a covardia da sobrevivência a calçar as asas que se atrofiam diante da impossibilidade do beijo.
... toda a vez que acender o batom como cigarro em uma noite insone, lembrarei o beijo que fiquei devendo ao senhor do tempo e do mar.
O meu amor, esse, abriu as asas e se escondeu de mim.
Alguns
pedaços em Madalena são como gomos de uma laranja, onde o suco escorre como se
o mundo fosse um espremedor agressivo e impiedoso. E é. Ela deixa escorrer o
medo e se desfaz em voltas que as rimas formam em sua cabeça – há ventos no céu
da boca quase insuportáveis de administrar, ela comanda os próprios furacões e
nada posso fazer aqui de fora, já que todas as suas falas pronunciam o nome
dele. Anda sozinha, sorri sozinha e as vezes até é monstro sozinha: cada passo
é em falso e um precipício chamando o outro, conta estórias que não quer
esquecer. Não pode reativar os laços porque na verdade, tudo nela é o contrário
e desliza desejos, mas se inspira na falta e a palavra dele é cântaro suave
naquela janela. Gosta de ler o moço quando a saudade é poesia concreta ardendo
na boca.
Madalena cansa das escolhas que faz e
mete o verbo no chão com medo do que é possível, como se isso fosse cacos de
idéias e relatos de uma paixão. Todas as palavras se ressentem da inspiração
que só ele lhe sussurra. (E quando voava ao lado dele, nunca a inspiração foi
tão farta e a alma tão leve nas promessas dos beijos futuros).
Ela finge que nem lembra, mas cada
vez que olha, o atrás é seu espelho e pesadelo. A boca dele em concha é o
alimento tátil e a sua prestação mais sofrida. Quando o amor resseca na boca, é
necessário antibióticos fortíssimos para sarar as ausências. Não sei como
sobreviveu sem estrelas até agora.
Quando caminha, a volta é o frio e
todas as portas traduzem gritos, quem é ela para compor o intervalo e pedir que
ele olhe o retrovisor? O que sinte já nem faz eco, e a letra que soletra já não
escreve o nome dele porque esqueceu de suas vogais. Uma lacuna e um verso não
escrito, milhas e milhas de rimas que tentou compor e era cara aquela falta.
Há curvas no tempo e todas as vezes
que tenta, o soneto é tempo no verbo passado, que bem podia ser perfeito.
(Uma roda de amigos, conversas ao
vento, o pensamento nela, e o moço sentado na frente da televisão compunha uma
novela que nunca teria final, muito menos feliz. Esqueceu que não sabia inglês,
e o The End ficou sem eco, pixado no muro em frente ao hotel).
Madalena se ressente do que não viveu
e a sua alma soletra a poesia rota que o tempo atropelou e marcou a carne viva.
Toda vez que canta pensa no ontem. E
cada vez que grita, as paredes de sua pele reeditam o dia em que, o que não
volta, faz sombra pelaeternidade. Nunca esquecerá que no
abraço descobriu outros mundos e outras paisagens invisíveis. E isso será
imputado em sua culpa para o sempre. E o presente dado, não pode ser devolvido,
porque já pertence ao cenário do pesadelo.
Prefere as cenas, reescreve os
diálogos: toda a falha é síntese que ela não consegue reemprimir páginas
arrancadas bruscamente de si. O livro é antigo, e a história sempre começa pelo
fim sem direito a reprise de inconseqüências. Ainda bem que o beijo quando
nunca, repete-se no final.
Madalena tem sonhos em vantagem e
toda intenção é o receituário de escolhas. Sabe o que faz todas as vezes que
volta. E a essa despedida arranha na pele como viagem sem volta – o bilhete é
só de ida e o destino, incerto.
- os cachos em seu cabelo são como
maçãs desse rubor facial. liga o play e tudo lhe revira o estômago e vomita o
morno.
Em todos os dias em que não se
desenha na fita, Madalena é angústias de uma alegria passada. Não se pode
condenar o tempo por promessas não pagas.
Ele me calou com o dedo
molhado de café em minha boca. Não dissemos uma palavra. Não havia mais nenhuma
para ser dita. Tudo estava como deveria estar desde o primeiro dia. Não há o
que se esperar da covardia das pessoas. Eu sempre tive a sorte (ou não) de ter
covardes para o jantar.
Aquilo não foi uma
despedida. Aquilo nem sequer era alguma coisa que se pudesse contar em alguma
história de amor. O moço dobrou a esquina e sei que sofria. Mas em mim a
covardia dele era um prato amargo de se consumir.
Eu quis gritar. Quis ir
atrás, implorar, acho que metade de mim foi com ele e ainda assim, eu quis ir
por completo. Mas era pouco o que eu sentia para ir com ele naquela aventura de silêncios.
A dor era tão grande que
chegava a desenhar vulcões em erupção sobre a minha pele. Pele de dores e de
desencantamento. Vi tudo o que estava por trás como se fosse a mim revelado
toda a farsa da covardia.
Eu chorei. E morri os dias
seguintes até que conseguisse sepultar todos os meus mortos e as minhas
lágrimas amargas e tão desnecessárias. Mas sou assim mesmo... o tempo de luto é
o tempo de recompor meus limites.
Quando o dia amanhecer após
uma noite longa de choro e de dor... eu ainda estava ali, esperando por ele, o
mesmo moço que morava em mim, mesmo depois de ter tentado colorir outra cor,
onde a pele dele era a minha tatuagem perfeita em minha alma e pele.
E todos os dias, alimento a
partida, como único recurso para chamar para mim a parte que foi e que me faz
falta quando espero os dias úmidos em minhas entranhas para agasalhar o frio de
alimentar sonhos... antes que a parte que me cabe também vá em homenagem a ele.
É quase certo que ele saiba o sentimento que me povoa a
pele. Sinto isso quando olho sempre para os lados e posso sentir a sua
respiração perto. Respiração de quem ama, mas não vem.
O dia me chamou para uma conversa séria e eu chorei. Sabia
que as lágrimas não cessariam enquanto os pedaços cortados em atitudes não
fossem rejuntados. Me fiz rio e mais que um simples choro, tornei-me um
vendaval incontrolado de dor. Uma dor quase insuportável que me fez vários
fragmentos de vontades e decepção.
Eu me inundo. E faz tempo que não me banho nessas águas de
dores porque tenho aprendido a domesticá-las e mantê-las longe onde não causem
danos... tenho aprendido a ler a lua, a entender as marés e a soltar o barco à
sua própria sorte. Mas viver é esse risco de embate e de contradições.
E hoje, essencialmente hoje, rios sufocam a minha pele e
escorrem pelas ruas onde tudo o que leio é o que falta nesse mar. Tenho em mim
que a respiração ofegante dele a qualquer momento vai me pedir para ficar e eu
vou continuar plantando as chuvas de uma alegria quase impar de se ver.
Não vou fotografar meu riso quanto tantas vezes fotografei a
dor. Que a minha alegria de ventos seja para sempre guardada nas fendas das
montanhas longe de todo olhar que me afaste dele. Tenho em mim a ausência da
alegria e parece que o tempo não vai parar por causa disso.
Abro os braços enquanto solto a direção na estrada. Nem sou
anjo, nem piloto ventanias, mas o que tenho isso espero, a minha voz em
protesto e o meu amor como casaco de pele.
Eu espero, plantando as chuvas como quem calça chinelos.
Wings of Desire, fotografia de Michael Matlach, 1989. EUA.
abri as mãos como se fosse possível encontrá-lo dentro delas. mãos úmidas de esperança, o coração que soletra seu nome e a vontade de adivinhar-lhe as asas.
trago a boca ainda ávida de sua voz como se a sua pele fosse posta em mim como uma tatuagem antiga. era você em mim desde o princípio e tudo o mais que se fizer palavra depois disso se tornou uma repetição de parágrafos, esperas úmidas.
a minha voz embargada dos dias que acordam longe de você tem o momento exato da falta de sua pele na voz rouca que sussurra o seu nome...
abri meu corpo para procurar você e me encontrei debaixo de suas asas.
Inquietações, desabafos, gritos, coisa alguma. A pele é a inscrição rupestre e a letra o meu testamento de vida. Sou aqui, uma carta em andamento, um dicionário de pequenos detalhes a cerca de mim mesma.
Email: dira.vieira@gmail.com