Wings of Desire, fotografia de Michael Matlach, 1989. EUA.
abri as mãos como se fosse possível encontrá-lo dentro delas. mãos úmidas de esperança, o coração que soletra seu nome e a vontade de adivinhar-lhe as asas.
trago a boca ainda ávida de sua voz como se a sua pele fosse posta em mim como uma tatuagem antiga. era você em mim desde o princípio e tudo o mais que se fizer palavra depois disso se tornou uma repetição de parágrafos, esperas úmidas.
a minha voz embargada dos dias que acordam longe de você tem o momento exato da falta de sua pele na voz rouca que sussurra o seu nome...
abri meu corpo para procurar você e me encontrei debaixo de suas asas.
Na varanda, o longe é lugar onde os meus olhos andam. E ele não vem e a rua se torna de uma dimensão quase neural. Em todo o tempo retoco o batom para que não resseque a boca do beijo que guardo para a noite. Há em mim milhões de palavras que não foram ditas e que precisam de abrigo em sua pele e mãos que me farão poemas em braile. Ele disse que seria assim e eu ainda o espero.
Ali em cima, o céu é a pele que guardo sem tatuagem. E em tudo vejo as suas asas fazendo contorno ao brincar de nuvens. Há um ritual para essa espera como todos os rituais de encantamento. Somos sozinhos sempre tão ou mal acompanhados.
Toco os meus limites com a palavra que se contorce de ausências. Não é você, nem sou eu, nem coisa alguma que nos resguarde. Eu tenho em mim a vontade de contornar a vida e me encontrar livre, ali, no fim daquela rua onde a espera tem o formato dos passos dele passeando por sobre as folhas secas e fazendo desenhos como se tocasse todas as falas.
Ele me disse tudo e eu guardei o que me feria a língua. É madrugada. E a noite me guarda um frio que não me pertence sem a pele dele... eu me entendo quando em mim a sua ausência me provoca enjoos.
Sinto a sua falta e isso é um outro poema que precisamos desenhar juntos.
O pensamento não pára de percorrer ruas, esquinas e praças em busca do que de invisível se deixa tocar pela pele que arde na simples hipótese de que o anjo tenha o nome da minha espera.
Quando os pés se enfiam na areia fofa da praia, as ondas veem com uma força de restauração e me sacodem para o dentro de onde ainda é o melhor lugar de se ficar.
É o mar que me lava, de ontem, de hoje, estrada aberta onde o meu olhar se prepara para enfrentar enquanto os acostamento, antigo perigo me aborda em uma tarde em que o meu corpo quer dormir mas a minha mente não consegue parar.
Tudo em mim é metade, vontade, palavra que se deita em minha pele fazendo ondulações e possíveis contatos. E se eu escrevo essa canção me inscrevo na pele dele, com todas as placas de pare, é proibido estacionar ai, mas eu continuo diminuindo a velocidade com medo de em pleno voo abortar a intimidade das asas abertas.
Açaí.
Mar alto onde o meu corpo pede um tempo antes que a próxima cena me domine e me deixe completamente refem do papel que o destino escolheu para mim. Sou mais que isso, na frente do espelho brigando com as marcas na pele e as histórias escritas em braile minuciosamente e tão delicamente que se ele me tocar, saberá dos meus medos e segredos.
A porta aberta.
A saliva secou a espera de outra boca, a que eu quero e a dona do beijo, o que nunca dei, e o que arde em mim como promessa de risos e gemidos em outra dimensão de esperas.
vou ali deitar o cansaço e volto, porque o que sou está transcrito, decifrado e nunca oculto, capaz de ser manual de esperanças incompletas,.
O dia amanheceu em mim e me dei conta que tenho acordado tarde. Não pode ser isso. Quando se acorda tarde é impossível acompanhar o sol que de teimoso queima as ruas sem o nosso consentimento. E eu queria estar com ele, aquecendo aos poucos o dia e as árvores dessa rua.
Dou-me conta da palavra que a pele molda, em uma tez que não é minha mas que adorna a minha imensa vontade de chorar. Os olhos parecem secos e a vontade se derrama em um dia quente. E eu poderia voltar a dormir se eu conseguisse adormecer o que em mim grita.
Tudo grita.
A urgência e a delicadeza de transpor essa luz de um dia que bem podia ter me deixado na cama. E eu quero voltar a ela para sonhar o que me deu a noite anterior.
Porque em mim, cada raio desse sol me diz que estou atrasada para um encontro que talvez eu nunca terei. E as pedras das minhas células que se retorcem nesse complô contra a minha ansiedade se movem e se recriam e a palavra novamente me chama a atenção para um parto que eu preciso fazer.
É aqui, na mesa da cozinha, onde eu me escondo enquanto o telefone toca e eu aviso, em secretária eletrônica que morri, ou que não estou para a superficialidade.
E quando a tarde se vai em uma melodia de longe, muito longe, me coloco submissa ao que acredito. Faz de conta que nem estou tão sozinha e que o que acredito se coloque como realidade sobre a minha paisagem.
E se a palavra ainda me construir, me coloco de braços abertos ao que velo e ao que sinto, como quem se coloca no altar ao que for mais importante.
O que sinto tem endereço e chama para si uma imensidão de sons e gestos que só são perceptíveis a quem como eu, vê ao longe e ao largo esse desejo tão grande de chover, onde terra seca era a palavra prática que ensaiava a esperança.
Todas os verbos recriam em mim uma modalidade inesperada de renascer, quando todas as ordens já tinham sido dadas em contrário.
Eu existo, e o verbo em mim me renova em contrário.
Inquietações, desabafos, gritos, coisa alguma. A pele é a inscrição rupestre e a letra o meu testamento de vida. Sou aqui, uma carta em andamento, um dicionário de pequenos detalhes a cerca de mim mesma.
Email: dira.vieira@gmail.com